Festivais de música são realmente inclusivos para pessoas com deficiência?

No Setembro Verde, o Mapa dos Festivais investiga como a luta por acessibilidade e representatividade impacta a experiência de PCDs como público, nos palcos e nos bastidores. 

O mês de setembro carrega um peso simbólico importante para o movimento das pessoas com deficiência. Em 2005, o dia 21 de setembro foi oficializado através da Lei Nº 11.133 como o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência. A data foi escolhida como uma forma de reverência  a movimentos sociais que, desde 1982, já apontavam a urgência de garantir direitos a estes grupos. Na busca por visibilidade e expansão do movimento, criou-se a campanha do Setembro Verde, também conhecido como o mês da luta pela inclusão das pessoas com deficiência.

Quando pensamos em festivais, ver de perto seus artistas favoritos, descobrir novos sons e viver experiências para além da música são alguns dos motivos principais que mantêm o público interessado e participante. Mas, para uma parte das pessoas, principalmente as que convivem com algum tipo de deficiência, essas vivências ainda esbarram em barreiras físicas, comunicacionais e sociais.

No mês de setembro, o Mapa dos Festivais junta música e luta para investigar: será que estamos construindo festivais verdadeiramente inclusivos para pessoas com deficiência?

Barreiras físicas

Impedimentos como escadas, acúmulo de lama e falta de banheiros adaptados são alguns dos problemas estruturais que impossibilitam a participação plena de pessoas com deficiências físicas em shows. Um exemplo marcante aconteceu em maio de 2025, no evento Todo Mundo No Rio, estrelado por Lady Gaga, onde inicialmente dois espaços para PCDs haviam sido disponibilizados, com capacidade combinada de 150 pessoas. O número chamou atenção pela comparação com a magnitude geral do evento, que recebeu 2,1 milhões de pessoas, segundo a prefeitura do Rio de Janeiro.

Lady Gaga no palco do seu show no “Todo Mundo no Rio” em 2025. Foto: Divulgação.

No público, estava Hawk Andrade, artista e frequentador de shows e festivais, que versa sobre as vivências da pessoa com deficiência nestes eventos. Sobre o Gagacabana, ele compartilhou com o Mapa: “No dia, a gente descobriu que tinha vaga para 150 pessoas. Um público estimado em dois milhões de pessoas, eles calcularam que a quantidade de PCD seria 150 pessoas, sabe? Se você calcula que vão apenas 150 pessoas com deficiência para um show que vai ter dois milhões de pessoas, eu acho que às vezes é melhor até você não fazer. Fazer desse jeito é um sinal claro de má gestão, de má vontade, de falta de respeito com a comunidade.

Além disso, fãs de Lady Gaga correram para as redes sociais para apontar problemas na área PCD. Diversos relatos apontaram que a estrutura havia sido invadida por pessoas sem comprovação de deficiência, que não teriam direito a acessar o espaço, levando o chão a ceder. Nessa situação, já havia sido recomendado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, que medidas para assegurar a acessibilidade fossem tomadas, como a instalação de uma terceira área e a sinalização correta e expressiva destes espaços. 

Outro ponto levantado pelo MP-RJ foi a falta de recursos de tecnologia assistiva, como intérpretes de Libras, o que auxiliaria na garantia da inclusão plena das pessoas com deficiência.

Antes mesmo de saber sobre qualquer exigência dos órgãos públicos, a falta de informação já havia impactado a experiência de Hawk: “Foi a minha primeira vez num evento tão grande e um evento público, gratuito. Então a gente já sabia que seria complicado essa questão da acessibilidade, mas ficou ainda pior porque a gente não tinha nenhuma informação sobre como seria essa área PCD, você tinha que correr muito atrás para achar alguma coisa.” 

Casos como este poderiam ser justificados pela ideia capacitista de que pessoas com deficiência não frequentam shows ou deveriam se contentar com áreas segregadas, o que transformaria o que deveria ser um espaço de encontro em um território restrito. “Conversei com outras pessoas com deficiência que também não foram para a área PCD, porque sabiam que ia dar mais trabalho do que tentar ficar confortável no meio da multidão. Eu esperava que fosse muito pior, mas é uma área que é muito ampla. Então você conseguia transitar com um certo conforto”, finalizou Hawk, que aproveitou o show, mesmo com a falta de medidas satisfatórias de acessibilidade.

O papel da lei e a aplicabilidade 

Em questão de promoção de acessos à pessoa com deficiência, o Brasil tem leis de inclusão bem definidas, como a própria Constituição de 1988 e a Lei da Meia-Entrada, que garante ingresso com desconto para PCDs. Na prática, ainda há uma divergência entre o que está garantido legalmente e o que é ofertado.

Há quem afirme que as mudanças que buscam a inclusão das pessoas com deficiência de forma efetiva nos festivais não surgem exatamente de dentro da indústria, por iniciativa espontânea, mas são resultado de pressão do público. 

Ainda assim, muitos festivais têm desenvolvido ações que buscam minimizar os problemas em relação à acessibilidade. Alguns exemplos são o espaço Sinta o Som no Rock in Rio, os recursos de de tradução em Libras, audiodescrição de shows e de cardápios no Rock The Mountain, e os serviços de mobilidade com cadeiras motorizadas e balcões rebaixados no MITA. 

Outro trabalho importante nos festivais quando falamos de acessibilidade é o das consultorias sobre o tema, como no caso do No Ar Coquetel Molotov, que já colaborou com Daniela Rorato, gestora da In Soluções Inclusivas e ativista especializada em Políticas Públicas para pessoas com deficiência.

Seja a partir de demandas coletivas e de orientações de grupos especializados ou por iniciativas pioneiras dos próprios festivais, itens como rampas, banheiros adaptados e setores específicos com estrutura adequada passaram a ser o mínimo esperado, e mesmo que em alguns eventos a realidade ainda esteja longe do ideal, a mobilização já conferiu avanços importantes.

A representatividade nos palcos e no backstage

Uma outra face do problema é no tocante à presença de artistas e profissionais com deficiência nos palcos e bastidores. É esperado que o  line-up seja, em algum nível, um reflexo natural da diversidade social, mas a presença destas pessoas nos festivais e shows segue sendo tratada como uma exceção à regra.

Aqui, a falta de diversidade e inclusão vem de muito antes das curadorias dos próprios festivais, já que a baixa representatividade não é fruto de falta de talento, mas de uma sociedade que é historicamente desigual, inclusive no acesso a carreiras artísticas. Viver de música já é um caminho restrito, pois exige uma combinação de recursos que muitas vezes não chegam para a maioria, e no caso das pessoas com deficiência esse problema só se intensifica. 

Algumas iniciativas buscam minimizar esses efeitos: nos Estados Unidos, a artista Lachi é idealizadora do RAMPD, organização que representa artistas e profissionais da música com deficiência no país; no Brasil, a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura tem como pontos centrais editais inclusivos, reserva de cotas e critérios que estimulam a participação de PCDs como proponentes, ampliando as oportunidades de acesso à produção cultural.

A lógica capacitista ainda perpetua uma ausência que pode levar à normalização da ideia de que a contribuição das pessoas com deficiência é limitada ao papel de público, e não de protagonistas, quando na verdade há uma cena plural de músicos, produtores e técnicos que seguem invisibilizados pela indústria.

Para além do Setembro Verde

Ainda assim, os eventos que tentam mudar esse cenário, as políticas públicas que buscam nivelar as oportunidades dentro da sociedade, os movimentos organizados que pedem por melhorias e até o público em geral, que se mantém atento, são partes ativas na discussão e no processo de criação de ambientes verdadeiramente acessíveis. O desafio reside no fato de que essa transformação não pode ser sazonal, restrita ao mês de setembro ou a campanhas pontuais.

O espaço na plateia, garantido, de qualidade, que atenda às necessidades, é essencial; mas também que artistas com deficiência ocupem o palco, que profissionais estejam nos bastidores e que festivais invistam na diversidade como parte da essência do setor cultural. Só assim a música pode ser, de fato, um meio de encontro plural, e os festivais um espaço de celebração coletiva.

Esse texto foi uma colaboração do Mapa dos Festivais com:

Luiza Silva 

É comunicadora de formação e produtora desde que descobriu que dava pra trabalhar com shows. Além disso, ouve e pesquisa música o tempo todo, e hoje transforma referências em conteúdo. Nascida e residente de Aracaju, cultiva o olhar atento às cenas e narrativas que surgem fora do eixo.

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