O anúncio pegou o público de surpresa: durante a edição de agosto de 2025, o Festival CoMA revelou que aquele seria seu fim. O evento, que nasceu em 2017, ajudou a fortalecer a cena musical da capital do país e se consolidou como ponto de encontro para artistas, produtores e público. Agora, o festival encerra esse ciclo como um gesto consciente, porém inesperado para o público.
O fim do CoMA levanta uma pergunta que ecoa para além do Distrito Federal: o que faz um festival acabar? Nas palavras de Michelle Cano, co-fundadora e CEO do evento, a resposta mistura economia, exaustão e mercado, mas também um olhar afetivo sobre ciclos que precisam ser finalizados.
O encerramento do CoMA não é um ponto final apenas para Brasília, mas um sintoma de algo maior: a fragilidade estrutural que atravessa festivais independentes no Brasil. Michelle chama de “banalização” o cenário em que festas se tornam “festivais” e grandes players canibalizam artistas e patrocínios, enquanto projetos com alma e propósito lutam para se manter de pé. Conversamos com a produtora sobre o processo de encerramento do festival.
A decisão de encerrar o ciclo
Para quem acompanhava de fora, a notícia pareceu súbita. Mas, para Michelle Cano, o fim do CoMA já vinha sendo maturado desde o fim de 2024. A cada edição, as dificuldades se acumulavam, e a própria estrutura do festival, dividido entre sócios que já seguiam caminhos distintos, deixava sobre ela um peso cada vez maior.
“Chega uma hora em que não faz mais sentido sustentar sozinha um processo que antes era coletivo”, contou. O anúncio durante a edição de 2025 foi, ao mesmo tempo, um gesto de sinceridade com o público e uma tentativa de encerrar o festival em alta, antes que a experiência se desgastasse: “Preferimos fechar com dignidade, sabendo o valor que o CoMA teve, em vez de insistir até o limite.”
Os desafios financeiros e de modelo de negócio
Entre as principais razões, a questão financeira foi decisiva. O CoMA nasceu com ingressos acessíveis e parcerias que buscavam democratizar o acesso (como os shows a R$ 15 e R$ 30 no CCBB), mas a conta nem sempre fechava. A equação se tornou insustentável em um cenário de inflação de custos, cachês em alta e patrocinadores cada vez mais escassos.
“Fazer um festival é um risco muito alto e, hoje em dia, a rentabilidade é muito baixa. Porque o nosso modelo de negócio, de uma maneira geral, é no sentido de associar as marcas para a gente poder pagar o custo do evento e faturar em bilheteria, né? Consumo.”, explicou Michelle.
Competição desleal e mercado “canibalizado”
Não foi apenas a falta de patrocínio que minou o fôlego do CoMA. A própria lógica do mercado de festivais pesou. Segundo Michelle, a disputa por line-ups se tornou “canibalesca”: grandes players fechavam artistas com exclusividade, inflacionando cachês e enfraquecendo os independentes.
“Está tudo enfraquecido e, em vez das pessoas sentarem, trocarem uma ideia e se ajudarem, está virando um lugar de canibalização. Para mim, o meu é mais importante, dane-se você. Isso gera uma reflexão: estamos chegando a um colapso? Significa que os festivais independentes não têm importância? Se eles morrerem, não vai acontecer nada? O ‘se ajudar’ é tão simples, sabe? É só ser verdadeiro com as intenções. Mas o mercado sempre foi muito masculinizado, sempre teve esse joguinho. Hoje, até existem relações mais colaborativas, mas ainda é difícil”, refletiu Michelle.
A sensação, para ela, era de exaustão diante de um cenário em que todos competem pelos mesmos nomes e pouco espaço sobra para projetos menores: “E não existe uma estruturação de políticas públicas nesse sentido. As marcas também não se atentam, porque ninguém se sente responsável. A responsabilidade fica sempre com o realizador. E se está sendo exaustivo, cansativo e custoso, chega uma hora em que a decisão é parar. O CoMA nasceu de um sonho, de uma vontade, de ver o público bem cuidado. Mas se ninguém divide essa responsabilidade, não dá para sustentar.”
Ao mesmo tempo, segundo Michelle, a palavra “festival” se banalizou: “Hoje qualquer festa se vende como festival”. É exatamente por isso que o Mapa dos Festivais criou critérios do que é um festival: precisa ter foco em música, no mínimo seis atrações musicais e oferecer uma experiência além dos shows ao vivo.
O legado do CoMA
Apesar do encerramento, Michelle faz questão de destacar que o CoMA deixa um legado. Entre os diferenciais, a igualdade de condições nos palcos: sem hierarquia explícita entre artistas consagrados e emergentes e a conferência que trouxe olhares de fora para dentro de Brasília.
“Foi um espaço de troca e qualificação. Para mim mesma, abriu portas para que eu me conectasse com o circuito nacional e internacional”, afirmou.

Outro marco foi o CoMA Consciente, iniciativa que trabalhava a sustentabilidade em três dimensões: cuidar de si, do outro e do ambiente. Também houve espaço para formação com o Comalab, que capacitou jovens para atuar no mercado da música.
“A essência não morre. As pessoas que passaram por aqui levam isso adiante. É um legado que reverbera”, destacou Michelle.
Lições que ficam!
O balanço de Michelle também aponta aprendizados. Um deles é que não necessariamente um line-up caro garante público. A edição de 2025 ilustrou bem isso: o sábado, com atrações de maior renome, atraiu menos público que o domingo, cuja curadoria foi mais acessível e plural.
“Isso mostra que não é só o nome grande que sustenta um festival. Precisa de coerência, de construção, de pensar o público de verdade.”
Mas talvez o maior aprendizado seja humano: a importância de cuidar das equipes. “Festival é feito de gente. Se a equipe não aguenta, o projeto não se sustenta. O CoMA me ensinou isso na prática.”
Para nós, frequentadores de festival, fica a reflexão: quais festivais queremos sustentar a longo prazo?





