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O que está acontecendo com os festivais de rap e trap no Brasil?

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Cancelamentos, desorganização, redução do mercado e perda de confiança: o colapso do CENA 2K25 expõe uma crise maior e mais profunda nos festivais de rap e trap do país.

De 21 a 23 de novembro, o CENA 2K25 deveria ocupar a Neo Química Arena com uma das maiores celebrações do rap e do trap no país. Em vez disso, entregou cancelamentos sucessivos, brigas nos bastidores, explosão de bomba, corte de microfones e o cancelamento completo do último dia. Mas o CENA não caiu sozinho. Em 2025, o Rap Game sumiu sem explicações, o REP Festival segue enfrentando críticas e novos festivais não estão conseguindo se sustentar.

A pergunta deixou de ser “o que deu errado no CENA?” e virou: o que está acontecendo com os festivais de rap e trap no Brasil?

Para começar, o que rolou no CENA 2K25?

O CENA 2K nasceu em 2019 com o objetivo de ser um grande festival de rap/trap que reúne novos artistas da cena, nomes consolidados nacionalmente e grandes atrações internacionais em um só lugar. 

Tal objetivo foi alcançado com sucesso ainda nas primeiras edições, mesmo com alguns erros naturais de um festival em crescimento, isso não se sobressaia ao sucesso do line-up e grande estrutura oferecida pelo CENA. Nesses 6 anos, o festival se tornou um dos maiores da cena de rap e trap no Brasil.

CENA 2K22. Foto: Henrique Cabral.

Mas em 2025 foi diferente. Desde o início, a comunicação foi falha. A pré-venda começou antes do line-up ser anunciado, a venda às cegas é comum em alguns festivais, o problema é que já na semana do festival o line-up seguia incompleto e os horários dos shows foram divulgados às pressas. 

Cancelamento de shows durante o CENA 2K25

Pareceu uma avalanche de cancelamentos: na sexta (21), um dia antes do show no CENA, o rapper Lil Gotit anunciou que não se apresentaria no festival com uma nota no Instagram: “Não vou me apresentar no CENA 2K25 por motivos do festival”. Em seguida, um dos healiners, A$SAP Ferg, também cancelou seu show que aconteceria no sábado (22). 

No sábado (22), o CENA 2K25 se pronunciou oficialmente no Instagram, informando o cancelamento dos shows de Young Thug, Oodarevil e Zukenee devido a uma série de fatores internos e externos”.

Alguns artistas foram surpreendidos com o cancelamento do show, como foi o caso de Ruy, the Runner que descobriu que não se apresentaria enquanto estava no camarim. “Não deram explicações… Eu cheguei na hora certa, montei um show novo que faz parte da minha tour (Adulto Ideal). Investi 40 mil nesse show, queria muito fazer o CENA. Os caras ‘sacou’ meu show, muito por conta da desorganização“, desabafou o artista nas redes.

Artistas que tocaram no CENA 2K25 tiveram problemas

A avalanche de problemas continuou para os artistas que conseguiram se apresentar no festival. Atrasos, shows encurtados e microfones cortados foram algumas das dificuldades enfrentadas por quem tocou no evento.

Os rappers LH Chucro e Trunks tiveram seus microfones cortados. Alee, um dos headliners do evento, teve o show encurtado e o microfone cortado. Durante a apresentação, Alee seguiu cantando até o microfone ser desligado. Ele encerrou a participação sem som, apenas com o público acompanhando as faixas em coro.

Alee no palco do CENA 2K25. Foto: Reprodução / João Henrique @jhenrick_og.

Barona, uma das artistas que se apresentou na sexta, também teve problemas e desabafou no X: “Não cumpriram com o rider técnico. Não cumpriram com o rider de camarim. Trataram minha equipe e meus músicos com MUITO desrespeito.

(literalmente) bomba no backstage e último dia cancelado

Confusão nos bastidores do CENA 2K25? Tivemos também. Um vídeo divulgado por @tpg_felipe nas redes sociais mostra uma discussão entre a equipe de Major RD e os seguranças do evento, que terminou com a explosão de uma bomba. Confira abaixo:

No dia seguinte, a Neo Química Arena informou nas redes sociais o cancelamento do terceiro dia de festival. “Após vistoria da Polícia Militar de São Paulo para checagem dos serviços essenciais ao público, o terceiro dia do Cena 2K deste domingo (23) está cancelado. A avaliação da PM foi a de que o evento não oferece os serviços médicos necessários para os presentes, contrapartidas obrigatórias da organização para a realização do festival e que eram de responsabilidade do Cena 2K.

O que o CENA 2K disse sobre tudo o que rolou nesta edição?

Em nota oficial, publicada no Instagram, o festival afirmou: 

O CENA 2K25 reconhece que não atingiu o padrão de excelência esperado e falhou em pontos que comprometeram a experiência de artistas, público e profissionais envolvidos. Apesar dos esforços diante de inúmeros desafios operacionais, incluindo questões críticas relacionadas à operação na Neo Química Arena, assumimos nossa parcela de responsabilidade pelo desfecho desta edição.

Para os artistas, ficou o recado: “Para todos os artistas que enfrentaram desafios e tiveram uma experiência frustrante, deixamos aqui nosso sincero pedido de desculpas. O CENA nasceu para atender vocês, e nesta edição reconhecemos nossos erros.

E quanto ao reembolso?

Sobre o reembolso dos ingressos, o CENA afirmou em nota oficial que “Estamos trabalhando em uma solução, que divulgaremos nos próximos dias, com mais informações sobre o procedimento de reembolso.” 

Segundo o g1, a Bilheteria Digital, responsável pelas vendas até o início de novembro, declarou que repassou todos os valores recebidos com os ingressos para o festival e que a responsabilidade é exclusivamente do CENA 2K.

A Q2 Ingressos, responsável pelas vendas dos ingressos a partir de novembro, não declarou nada até a publicação desta matéria. 

No final, o CENA 2K não falhou só na execução do evento, como também perdeu qualquer noção de responsabilidade, tanto com os artistas quanto com o público. 

A crise vai além do CENA 2K

Entre 2024 e 2025 o Mapa dos Festivais registrou 14 festivais de rap/trap adiados e cancelados. Sendo nove deles cancelados, ou seja, o evento não rolou depois de anunciado.

Este ano, o CENA 2K não foi o primeiro festival de rap/trap a mostrar dificuldades este ano, por exemplo: no início do ano o Rap Game anunciou datas em Salvador e Brasília, inclusive abriu uma pré-venda sem line-up divulgado e desapareceu com informações sobre essas edições. Nas redes do evento, não há sinal algum dessas edições.  

O REP Festival, realizado no Rio de Janeiro, é outro exemplo de grande festival de rap/trap que vem passando por dificuldades memoráveis em suas edições (como esquecer a edição de 2023?! relembre aqui). Em 2024, foi adiado para o ano seguinte, e em 2025 não deu notícias.

Os problemas são quase sempre os mesmos: falta de estrutura, problemas técnicos e no line-up.

Dentre esses problemas, há o preço alto de ingressos para o público, que é majoritariamente jovem e não consegue pagar ingressos nos valores entre R$ 200 e R$ 600.

A programação, repetindo sempre os mesmos nomes, também faz o apelo pelos festivais serem reduzidos. Além disso, a base do rap, que são as batalhas e os artistas regionais, ficam de fora desses eventos. 

Festivais como o Rap In Cena (RS), Sons da Rua (SP) e Alma Festival (RJ) mostram que é possível valorizar a cena do rap/trap como um todo e ainda evidenciar artistas locais.

Existem também eventos de grande porte puxados por artistas, como o Plantão Festival (Matuê) e o GIGANTES (BK’), que mostram a força comercial do rap/trap hoje.

Quando a própria cena se apoia

Uma das principais marcas do rap/trap é a união que essa cena tem. Exemplo disso foi o cancelamento do domingo (23) que virou um dia histórico do rap/trap brasileiro

Matuê no palco no da 23 de novembro. Foto: Reprodução / X.

Artistas como Matuê, Veigh, DEP, Tevito e Raffa Moreira montaram seus próprios eventos por São Paulo, para não deixar os fãs na mão. Tudo foi organizado em poucas horas, considerando que o CENA 2K foi cancelado ainda no domingo.

No X, Matuê se pronunciou:

Tudo isso tá saindo do esforço e do bolso dos próprios artistas, não tem nada a ver com a organização do CENA. Valorizem o trap 🖤 (…) Evento organizado em 4h, isso é trap br. Isso é 30PRAUM.

Apesar dos bastidores dos grandes eventos de rap não estarem vivendo seus melhores momentos, ações como a de domingo mostram que o rap e o trap estão mais vivos que nunca, e que tem público e muitos artistas dispostos a fazerem essa cena girar e continuar crescendo.

Laura Araújo

Jornalista musical, soteropolitana e apaixonada por escrever sobre cultura. Sempre de fones ouvindo música ou bons podcasts, gosto de traduzir cultura, música, shows e festivais em textos. No Mapa dos Festivais, encontro o equilíbrio perfeito entre jornalismo, criatividade e a paixão por explorar tudo o que movimenta a cena musical brasileira.

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