Quando o espetáculo engole a obra e o palco vira publicidade.
Por Ali Prando
Os grandes festivais brasileiros se transformaram em máquinas de espetáculo. Não se trata mais de experiências musicais compartilhadas, mas de um teatro de manutenção de carreiras. Artistas nacionais, auxiliados por marcas e importando linguagens pasteurizadas, montam shows de estádios que jamais rodam o país. O Brasil não tem arenas espalhadas para receber esses formatos — e esses artistas não têm demanda de público para sustentá-los, apesar de circularem nos canais do mainstream. A realidade é mais dura que o sonho. Essas apresentações funcionam como vitrines de si mesmas: reafirmações de status, manutenção de cachês inflacionados, performances de ego, mais próximas da lógica da publicidade do que de uma experiência artística.
Surge, então, uma contradição central: se nem os artistas mainstream conseguem viabilizar turnês concretas com esses formatos gigantescos, por que esse modelo é vendido como horizonte inevitável? A resposta talvez esteja no desejo de encenar grandeza, de simular pertencimento a uma cena global que, na prática, não existe fora do espetáculo único e centralizado. O festival vira palco de uma ficção de mercado que não se sustenta.
Com os artistas internacionais, o cenário não é menos precário. Por trás dos ingressos caros e da promessa da “experiência completa”, o que chega aos palcos brasileiros são retalhos das obras originais: riders técnicos cortados, cenografias mutiladas e montagens improvisadas. O público paga caro por simulacros — versões degradadas dos shows que circulam em outros países. A promessa de cosmopolitismo se revela um mercado periférico, onde se consome espetáculo desfalcado. Os fãs mais ávidos saem satisfeitos, porque essas são as únicas chances de ver seus ídolos em cena. Mas, para muitos, o festival se assemelha mais a um shopping center do que a um espaço de fruição musical.
Talvez nada denuncie mais essa transformação do que a saturação de marcas. O território que deveria ser de encontro com a música se converte em feira de live marketing. A circulação entre palcos é atravessada por ativações, brindes e selfies patrocinadas. O festival se torna vitrine de consumo individual, onde a música funciona como pano de fundo — um jingle glorificado que legitima o espetáculo publicitário. Tudo convida a encenar-se como protagonista de uma narrativa social, muito mais do que a se perder na música. A curadoria acompanha essa lógica: o critério não é a singularidade de uma experiência artística, mas o peso midiático de quem garante manchetes e viralizações.
O problema não está apenas no público distraído ou nos celulares em riste. Está em uma engrenagem que privilegia imagem sobre substância, marketing sobre música, registro sobre escuta. Os festivais se tornaram playgrounds do ego, tanto para quem os frequenta quanto para quem os organiza. O que se perde nesse processo é a própria promessa do “ao vivo”.
O filósofo Guy Debord escreveu que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediada por imagens. É exatamente isso que os festivais encenam hoje: a música existe para alimentar timelines, gerar capital simbólico no feed, não para ser vivida em sua materialidade. Entre selfies, hashtags e narrativas cuidadosamente editadas, a experiência dissolve-se em simulacro.
Eis o paradoxo: nunca se consumiu tanta música, nunca se foi a tantos festivais — e raramente a música parece ocupar o centro. O espetáculo engole a obra, a publicidade ocupa o palco, e os festivais se tornam dispositivos de marketing disfarçados de experiência cultural. Talvez reste a pergunta inevitável — e incômoda: queremos viver a música ou apenas posar diante dela?
Sobre o autor:
Ali Prando é artista, filósofo e curador. Seus trabalhos transitam entre música, filosofia e crítica social, investigando como a vida noturna, os festivais e a experiência ao vivo revelam as tensões do nosso tempo. Criador do Festival Transforma Música, atua no cruzamento entre som e pensamento para questionar o presente.





