Listas T&NB: inclusão que transforma os festivais brasileiros

Iná Cholodoski é pesquisadora e doutoranda em Sociologia, e Macaia Ferro é pesquisador e mestre em Antropologia Social. Juntos, eles têm produzido relatórios sobre a presença das Listas T&NB nos festivais brasileiros. No segundo semestre de 2025, foi ao ar o Listas Trans: Um Panorama dos Festivais Brasileiros de 2024, trazendo dados sobre as políticas de acesso a festivais e eventos musicais voltados para a população trans, travesti e não-binária no Brasil. 

“Essa política necessária existe para que além da inserção, prometermos um espaço seguro e diplomático para pessoas trans, respeitando sempre o gênero, etnia e classe social das mesmas.” – destaca o panorama.

A evolução das Listas T&NB

De 2017 a 2023, pelo menos 15 festivais haviam adotado as políticas das listas trans. Em 2023, foram sete festivais, incluindo as franquias internacionais AFROPUNK e Primavera Sound. Em 2024, esse número quase dobrou: ao todo 24 festivais adotaram a lista trans ano passado.

De acordo com o Listas Trans: Um Panorama dos Festivais Brasileiros de 2024: foram mais de 5300 ingressos ofertados por dia de evento em 2024; 70,3% de pessoas não brancas foram impactadas pela lista trans; 69% das pessoas contempladas nunca foram ao evento antes.

Grandes festivais como o Rock in Rio, Lollapalooza, AFROPUNK e Rock The Mountain já adotam essa política, o que faz com que a busca pelas listas aumentem. As pessoas já esperam por isso, além de ser uma forma inteligente de posicionar um festival, é, sobretudo, uma política de extrema importância para a população trans e não-binária.

A importância das Listas T&NB

Ana Giselle, mais conhecida como TransAlien, foi a pioneira da lista trans e não-binária no Brasil quando promoveu a primeira em 2017 no Coquetel Molotov, consagrado festival recifense.

Essa política se torna ainda mais urgente quando consideramos que, além do ingresso, há outros custos para viabilizar a presença em um festival, como transporte e consumo no evento. Segundo o Panorama Mapa dos Festivais 2024, o brasiliero paga em média R$ 375,42 no ingresso no festival. Na mesma pesquisa, mais de 1.170 pessoas relataram gastar entre R$ 200 e R$ 400 com comida, bebida e outros itens durante o evento. Só o valor médio do ingresso corresponde a 26,6% do salário mínimo brasileiro em 2024, que era de R$ 1.412.

As listas, portanto, são uma medida concreta de inclusão para pessoas trans e não-bináries, que frequentemente enfrentam dificuldade de inserção no mercado de trabalho e de garantir renda fixa.

Quais os critérios da Lista T&NB?

Equidade das identidades

As listas procuram distribuir as vagas de forma igualitária e representativa entre as identidades trans: 33% para mulheres trans e travestis; 33% para homens trans e pessoas transmasculinas; 33% para pessoas não binárias.

Perfil racial

Considerando as interseccionalidades que estruturam as desigualdades no Brasil, raça e etnia tornam-se critérios centrais de seleção, priorizando pessoas PPI (pretas, pardas e indígenas).

Perfil territorial

O território também é um critério importante. Ainda que existam tarifas sociais e gratuidades em transportes ou programas como o ID Jovem, se deslocar para outros municípios ou estados não é apenas uma questão de custo financeiro: envolve dimensões físicas e psicológicas. Alguns festivais priorizam residentes de municípios próximos, como o Rock The Mountain, enquanto outros, como o BATEKOO Festival e o Sensacional!, buscam abranger territórios periféricos em suas cidades.

Primeira vez no evento

Talvez o critério mais simbólico seja dar a chance de viver o “sonho” de estar em um festival. Seja pelo peso histórico do evento, pelas atrações que mobilizam afetos ou pela simples experiência de acessar um espaço distante da rotina, é um critério que transforma vidas.

O desafio da popularização das Listas T&NB

O aumento das listas tem levado alguns eventos a não realizarem a checagem com pessoas trans e travestis que têm experiência, conhecimento e sensibilidade para conduzir o processo. Isso abre espaço para um problema grave: o transfake.

“O termo transfake é bastante utilizado no mundo das artes, descrito enquanto o ato de pessoas cisgênero interpretarem personagens trans em produções audiovisuais. No caso das listas trans, são pessoas cis que preenchem os formulários criando nomes ou adaptando os seus para conseguir adquirir os ingressos.” – aponta o relatório.

Ainda há muito a evoluir

As listas T&NB estão impactando cada vez mais a população trans e não-binária, mas ainda há um longo caminho a percorrer.  O Panorama Mapa dos Festivais 2024 registrou 402 festivais em 2024 no Brasil, desses, apenas 20 festivais adotaram a política de lista trans e não-binárie. Isso é menos de 5% dos festivais realizados no ano. 

Além disso, festivais com maior público são justamente alguns dos que menos oferecem vagas. O Rock in Rio 2024, por exemplo, recebeu mais de 700 mil pessoas nos sete dias, mas ofertou apenas 100 ingressos em um único dia. O Lollapalooza teve público de 240 mil pessoas e apenas 30 vagas para a lista trans.

Por outro lado, Festival Psica (PA), AFROPUNK Brasil (BA) e Mamba Negra Festival (SP) lideraram a distribuição, com mais de 500 ingressos cada para a população trans. 

Dos 24 festivais que realizaram listas T&NB, 16 aconteceram no Sudeste. Apesar disso, o Norte (5 festivais) e o Nordeste (4 festivais) lideram em número de ingressos distribuídos.

Já passou da hora dos festivais enxergarem as listas trans como uma oportunidade real de inclusão de uma população marginalizada no Brasil e como expansão para seus eventos. Pessoas trans e não-bináries merecem o direito a ter acesso ao lazer e à cultura. Elas merecem caber nesses espaços.

Leia também: Lista T&NB: por que os festivais precisam adotar?

Laura Araújo

Jornalista musical, soteropolitana e apaixonada por escrever sobre cultura. Sempre de fones ouvindo música ou bons podcasts, gosto de traduzir cultura, música, shows e festivais em textos. No Mapa dos Festivais, encontro o equilíbrio perfeito entre jornalismo, criatividade e a paixão por explorar tudo o que movimenta a cena musical brasileira.

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