Com uma trajetória que abrange mais de duas décadas, Vinícius Lemos, fundador do Festival Casarão (RO), advogado e professor universitário, tornou-se uma das vozes mais experientes do país no que diz respeito à viabilidade de eventos culturais na Amazônia. O festival nasceu em 2000, no rastro das festas de férias em Porto Velho, ocupando um casarão histórico às margens do Rio Madeira. De uma festa regional, o projeto amadureceu para se tornar uma vitrine essencial da música independente nacional no Norte, trazendo nomes como Dead Fish, Ratos de Porão, Pitty e Emicida antes mesmo do grande estouro comercial de muitos deles.
Completando 26 anos em 2026, o projeto teve uma edição ampliada, passando por Porto Velho, Rio Branco, Manaus e Brasília, conectando cenas da Amazônia ao Centro-Oeste e reforçando uma virada importante: o Casarão deixou de ser apenas um festival localizado para se afirmar como uma plataforma de circulação da música independente brasileira. Tornou-se um circuito desde 2025, numa virada focada em conexão cultural e estratégia.
Em Porto Velho, a etapa aconteceu nos dias 3 e 4 de junho, no Zé Beer, com um line-up que misturou rap, rock, indie e cena alternativa, reunindo nomes como FBC, F’Dois, Zimbra, Nicles, Marcela Bonfim, Os Últimos, Benvindo ao Pacífico, Samuel Béra Band, Carlos Mossoró e Sandra Braids. Antes dos shows, a Semana da Música Casarão ocupou a cidade entre 29 de maio e 2 de junho, com atividades gratuitas de formação, debates, oficinas e apresentações voltadas para a cadeia produtiva da música na Amazônia.

Esse crescimento não veio por acaso. A edição de 2026 teve patrocínio da Petrobras, via Edital Seleção Petrobras Cultural – Novos Eixos 2025, e consolidou justamente uma das principais estratégias defendidas por Vinícius Lemos: transformar o festival em circuito, criar integração regional, fortalecer ações formativas e apresentar um projeto com impacto territorial real. Segundo reportagem do Rondôniaovivo, o edital teve mais de 8 mil projetos inscritos e menos de 200 selecionados, o que dá a dimensão do carimbo conquistado pelo Casarão.
Abaixo, Vinícius conta como essa experiência virou estratégia para aprovar projetos, captar recursos e manter vivo um festival que, ano após ano, segue fazendo Porto Velho e outras capitais fora do eixo entrarem na rota da música independente brasileira.
Qual é a origem do nome “Casarão” e como a identidade regional de Rondônia está impressa no DNA do festival?
Vinicius Lemos: “O termo ‘Casarão’ refere-se a uma construção histórica na beira do Rio Madeira, de 1800 e pouco, que fica a cerca de 7 km de Porto Velho, em uma área que envolve floresta, o rio e a história da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O festival nasceu desse contexto de ocupação de um local que contava a história da fundação da nossa cidade.
Até 2003, o evento era focado apenas em bandas locais, e só em 2005 fizemos a transição para um festival nacional, trazendo nomes como Ludov e Cachorro Grande. Em 2009, tivemos que tomar uma decisão difícil: as obras das usinas do Rio Madeira transformaram a área original do casarão em local de risco. Decidimos manter o nome, mas passamos a perambular pela cidade, apropriando-nos da marca ‘Festival Casarão’ como um símbolo da história de Porto Velho, independentemente do local físico.
O festival passou por um longo período parado. O que você percebeu que aconteceu com a cena cultural de Porto Velho durante esse hiato e por que decidiu voltar?
Vinicius Lemos: Eu parei em 2014, quando minha carreira jurídica e acadêmica estava crescendo e o festival já não me trazia retorno financeiro ou perspectiva de fomento. No início, achei que tinha cumprido minha missão, mas com o tempo vi que Porto Velho ficou estagnada. O pop rock e o indie sumiram; se eu não trouxesse os artistas, ninguém trazia.
Percebi que uma cidade sem festival perde muito. O jovem de Porto Velho, que muitas vezes nunca pegou um avião, pôde ver shows antológicos aqui graças ao Casarão. A retomada em 2022 foi impulsionada por essa nostalgia e pela percepção de que o festival é um amplificador de tendências indispensável para o nosso território. Hoje, eu doo cerca de 20% da minha vida para a produção cultural, porque entendo que o festival é necessário para manter a cena viva.
Você mencionou em outras entrevistas uma “bolha dos cachês” e a ascensão de “festivais de agência”. Como isso afeta os festivais independentes hoje?
Vinicius Lemos: Pós-pandemia, a lógica do mercado mudou. Surgiram os ‘festivais de agência’, onde as grandes agências de marketing, que têm contato direto com os orçamentos das marcas, resolvem elas mesmas fazer o evento. Para elas, pagar R$ 100 mil de cachê para um artista médio é nada, mas para um produtor independente, isso inflaciona o mercado de forma insustentável.
Vemos artistas que colocam 500 pessoas em uma cidade cobrando cachês de R$ 50 mil porque tem alguém que paga. Isso cria uma dificuldade enorme para festivais como o abril pro rock, por exemplo, que acabam perdendo espaço porque as prefeituras levam os mesmos artistas de graça no Carnaval ou em festas de fim de ano. Em algum momento essa bolha vai estourar, porque essa conta não fecha no longo prazo para quem vive exclusivamente de bilheteria e patrocínio.
Qual foi a estratégia logística por trás da criação do “Circuito Casarão” em 2025, passando por quatro capitais?
Vinicius Lemos: A expansão para Manaus, Rio Branco e Brasília foi uma tática de sobrevivência. O ‘Custo Amazônia’ é brutal: uma passagem aérea de São Paulo para Porto Velho, comprada com antecedência, pode custar R$ 1.800. Se eu fecho um circuito, consigo diluir esse custo. Por exemplo, incluindo Manaus e Brasília, eu otimizo a logística da banda e ganho fôlego financeiro com a bilheteria de outras praças onde o público é mais numeroso.
Além disso, os editais modernos agora exigem integração regional e ações continuadas. No edital da Petrobras, propus quatro capitais, o que foi um diferencial decisivo para sermos contemplados. Estamos deixando de ser apenas um festival de Porto Velho para ser um projeto que dialoga com toda a região Norte e o centro do país.
De que forma o histórico de 26 anos do Casarão se transforma em um ativo técnico para vencer editais nacionais?
Vinícius Lemos: A gente tem essa bagagem. Quando eu concorro no edital da Petrobras, que é o mais concorrido do Brasil, a gente é contemplado. Óbvio que eu tenho um lado bom e um lado ruim de ter 26 anos nisso, porque isso conta muito ponto em edital e patrocínio. Mas quem olha pensa que é um festival totalmente consolidado, e a gente não é. Todo ano a gente fica na dúvida se no ano que vem vai ter ou não, porque somos um público de formação em uma cidade pequena dentro de um “custo Norte”, região com logística extremamente cara. O grande carimbo que eu tenho dessa retomada é que ganhamos cinco editais e ficamos muito bem posicionados nos da Funarte.
Você mencionou que a “sacada” para vencer o edital da Petrobras foi transformar o festival em um circuito. Como isso funciona na prática da pontuação?
Vinícius Lemos: Eu tinha um problema porque a Petrobras lançava o edital de festivais e a concorrência era meio que internalizada no Norte. Eu ficava sempre em terceiro e eles contemplavam dois. O primeiro era o Se Rasgum, o segundo o Varadouro.
Por que eu pensei o circuito? Porque não consegui ser contemplado no Rouanet Norte com um projeto que era só em Rondônia. Ao analisar minha nota, vi que se tivesse colocado que ia passar por nove cidades do interior, ganharia 18 pontos a mais. No projeto da Petrobras, mudei a estratégia: agora o festival é em quatro capitais, Porto Velho, Manaus, Rio Branco e Brasília. Isso foi um diferencial. Cada vez mais os editais deixam de olhar eventos isolados. Tem que ter ação formativa e integração regional. Isso se torna um diferencial em quase todos os editais. Às vezes faz mais sentido adaptar o seu evento para um formato que tenha mais chance de ser aprovado para garantir a sobrevivência.
Diante de todas as dificuldades, qual é a sua visão sobre o papel das políticas públicas para os festivais fora do eixo Rio-São Paulo?
Vinicius Lemos: Falta uma política de compensação real. As grandes marcas de telefonia e bancos investem milhões no Sudeste, mas ignoram as localidades periféricas. Eu defendo que, a cada R$ 5,00 patrocinados por um banco no Sudeste, R$ 1,00 deveria ir obrigatoriamente para as regiões Norte ou Nordeste.
Minha crítica à Funarte é que ela concentra muitos recursos em poucos projetos gigantes. Eu preferiria que, em vez de darem R$ 500 mil para um único festival, dessem R$ 100 mil para cinco festivais diferentes. Com R$ 100 mil eu faço o Casarão acontecer, adaptando a curadoria e trazendo artistas de qualidade de forma sustentável. Precisamos de editais pulverizados que entendam que o Brasil é imenso e que cada território tem sua particularidade.
Para encerrar, o que o motiva a continuar doando “20% da vida” para o festival, sendo que sua carreira jurídica já é consolidada?
Vinícius Lemos: Uma cidade sem festival perde muito. O jovem de Porto Velho que não tem condições de viajar viu shows antológicos aqui. Se eu não trouxer o pop rock ou o indie para cá, ninguém traz, porque aqui o que domina é o sertanejo e o pagode.
O festival é um amplificador de tendências. Ver que a gente sobreviveu ao governo anterior, que era contra a cultura, mostra que a persistência é o que nos mantém vivos.







