Dia 20 de setembro é Dia do Gaúcho e no imaginário brasileiro, a figura do gaúcho costuma vir acompanhada de bombacha, chimarrão e cavalo. Uma imagem forte, mas limitada, que reduz uma cultura inteira a um estereótipo muitas vezes associado ao conservadorismo, ao passado e, principalmente, ao homem hetéro, cis e branco. No entanto, o Chisme Festival, que acontece em Porto Alegre, propõe outro olhar: celebrar os pampas como território vivo, diverso e latino-americano.
Entre as atrações, quem assume o palco é a bailarina e coreógrafa Emily Borghetti, que leva a chula para além dos manuais de tradição. Mulher em um espaço historicamente masculino, ela transforma o sapateado da dança em gesto de resistência e afirmação de futuro. O Mapa dos Festivais entrevistou a artista que carrega tradição e futuro consigo.
A chula que desafia o manual
A chula é uma dança de desafio: dois dançarinos se enfrentam diante de uma régua de madeira, em duelos de sapateado. Chegou ao Brasil com os tropeiros e foi incorporada à cultura gaúcha como prática masculina. Mas para Emily, nunca houve dúvida: ela cresceu sapateando ao lado da mãe e transformou essa herança em espetáculo autoral.
“Para mim nunca existiu esse pode ou não pode. Eu sempre sapateei. Minha mãe sapateava chula. O julgamento só veio quando comecei a dar aula em CTG (Centro de Tradições Gaúchas) e vi que as prendas* não podiam dançar”, conta.
*Prendas são as mulheres como símbolo da cultura do Rio Grande do Sul.
Não por acaso, o espetáculo de Emily se chama “Chula”, uma palavra que também pode significar “vulgar” e que reflete a crítica que muitas vezes ouviu por ocupar esse lugar. A artista se apropriou da expressão para ressignificá-la, colocando no palco a força de uma dança feminina, autoral e cheia de camadas simbólicas.

Tradição em movimento
Para Emily, tradição não é prisão, é movimento. “O legado não está pronto. Ele se constrói o tempo inteiro. Eu danço chula, rancheira, milonga porque me emociono com isso. É o meu jeito de amar a cultura gaúcha”, diz.
Essa visão se conecta diretamente à proposta do Chisme Festival, que não celebra o passado como peça de museu, mas como pulsação que atravessa fronteiras. Do candombe no Uruguai à milonga rioplatense, passando pela neo-cumbia eletrônica, o evento mostra que tradição e contemporaneidade podem caminhar juntas.
“Não faço meu trabalho para reclamar. Faço para construir o que quero que exista. Enquanto alguns reclamam, eu tô chulando”, resume Emily.
Entre o pampa e a América Latina
O espetáculo de Emily no festival insere a chula em um diálogo maior: o do pampa como território latino-americano, não apenas gaúcho. “Não é mexer num vespeiro, é estar num lugar frutífero, cheio de possibilidades. É amor pela nossa cultura”, afirma.
Ao lado de expressões como a milonga e a neo-cumbia, a sua chula abre espaço para que o público veja o Rio Grande do Sul em perspectiva ampliada como parte de um caldeirão cultural que envolve Brasil, Uruguai e Argentina.
Apesar de ser natural para Borghetti, seu sapateado também ecoa como gesto político e poético, provando que a tradição pode ser reinventada e que a cultura gaúcha é muito mais múltipla do que o estereótipo sugere.
Celebre a cultura dos pampas com o Chisme
O Chisme Festival acontece no dia 15 de novembro, no Jockey Club do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, e promete abrir um portal para a América Latina, onde a milonga encontra o eletrônico e a cumbia pulsa em tambores digitais.
No line-up do festival estão Julieta Rada y Ruben Rada, Perotá Chingó, Nei Lisboa, Clementaum, Chancha via Circuito, Frente Cumbiero, Nina Nicolaiewsky e Sucinta Orquestra, Miss Tacacá, Emily Borghetti, Roda de Milonga, Festa Coice e Festa Problemón. Garanta seus ingressos aqui.





