Anderson Foca é músico, produtor musical e fundador do Festival DoSol, que tem mais de 20 anos de história em Natal (RN). Ele foi ao Lollapalooza Brasil no último final de semana e compartilhou com a gente as suas impressões. Vem ler o relato dele, que tá massa!
Texto por Anderson Foca (@focadosol)
O PRIMEIRO DIA DE LOLLA BR #25: DE RODRIGO A RODRIGO
O primeiro dia de Lollapalooza Brasil, começou com uma escolha de Sofia: chegar cedo pra ver os DEAD FISH e arriscar não conseguir ficar até o final pra ver a outra Rodrigo, a Olivia. Resolvi ir no opendoor nesse primeiro dia de Lollapalooza 2025.
DEAD FISH abriu o palco dos Rodrigos. Palco principal do Lollapalooza pra uma banda que se coloca entre as maiores e mais prolíficas carreiras do rock brasileiro. Poderosos, irônicos e soltando canetadas políticas o tempo inteiro. Nunca erram. Destaque completo para a dupla Rodrigo nos vocais e Ric na guitarra. Dois bambas do hardcore brasileiro.

O JOVEM DIONÍSIO veio numa espécie de reinvenção após o sucesso estrondoso e inesperado de “Acorda Pedrinho”. No Lollapalooza, eles montaram um biombo no meio da enorme estrutura do palco principal, como se estivessem no icônico 92graus, espaço importante do underground curitibano.
Baseados numa sonoridade esperta e com muitas canções na pauta, agradaram geral. No final do show uma homenagem ao Erasmo Carlos e uma parada abrupta por causa de nuvens pesadas se aproximando do Autódromo de Interlagos. O festival teve de seguir o protocolo necessário de pause para manter o público, os trabalhadores e os artistas em segurança. “Acorda Pedrinho”, que deveria terminar o show, ficou pra outro dia.

Os shows voltaram com a boa apresentação dos irlandeses INHALER, que tem na sua formação Elijah, filho do Bono Vox dos U2. Rock simples, vigoroso e certeiro, curti.
O WHITE DENIM veio em seguida para um palco vazio (problema de quem não viu) mostrando porque são há tempos um nome forte do indie americano. Fritação guitarrística, canções maduras num rolê meio bluesly de onde saiu também gente como Alabama Shakes. Bem bom.
Já tinha batido na trave de ver os EMPIRE OF THE SUN e ontem chegou o dia. O synthwave oitentista e meio bizarro dos australianos é só o pano de fundo para um show teatral e ultravisual. Bonito de ver. O público mirim, 90% dele posicionado para ver a Olivia Rodrigo não deve ter entendido nada. Não sei se gostei, mas bateu!

Antes de falar do melhor show da noite comento rapidamente da JUYÊ, um R&B que ontem não me conectei. Também assisti ao show do JÃO. Palco muito bonito. Músicas 100% fora do meu recorte estético, então dizer que não gostei é até injusto. Não é pra mim. Teve um cover constrangedor de “Linger” dos Cranberries pra fechar a tampa.
O JPEGMAFIA é um acontecimento. Muito pesado, sem sinais do trap pop e insosso que a gente vê por aí. Breakbeats jazzysticos e hardcore ao mesmo tempo num p.a. tão potente que quase não consegui ficar na frente. É um tipo de som pra quem curte rap progressivo, como Kendrick do velho testamento e Death Grips. Melhor show do dia. Tô surdo até agora.

Lá de longe vi os primeiros acordes da OLIVIA RODRIGO e pelo que li fez o que se esperava dela: carisma, pop rock e show de arena. Gosto bem.
O SEGUNDO DIA DE LOLLA BR #25: ALANIS + 10
É com essa expressão futebolística aí do título que os craques são anunciados e o Lollapalooza na sexta-feira foi dela: ALANIS MORISSETTE.
Dona de um repertório forjado num mundo completamente diferente, exposta muito cedo ao super sucesso do icônico e premiado “Jagged Little Pill”, seu álbum de estreia de 1995, a canadense mostrou porque é uma das cantoras mais influentes do planeta até hoje.
Hits? Aos montes, todos muito bem desenvolvidos por uma banda cascuda e colada para apoiar a voz perfeita, técnica, emotiva e incomparável de Alanis Morissette ao vivo. O clichê do vinho que melhora com o tempo cabe perfeitamente pra cantora que só agora completou 50 anos (ela está há tanto tempo na ativa sem parar e gravando álbuns que parecem mais).

Ainda tinha Lolla pela frente, mas seria muito difícil tirar o título de melhor show do festival dela. Caí no choro em vários momentos, extasiado pela beleza das canções e da performance da banda.
O começo à capela para a estrondosa “Hand in My Pocket” arrepiou a alma. O que parecia o final com a apoteótica “You Oughta Know” se estendeu à belíssima “Thank U” e aí, junto com ela, também agradeci pela minha vida, família, amigos e a chance de poder viver momentos como esse.
Fui arrebatado pela arte, pelo rock, pelo poder comunitário da música ao vivo. Obrigado Alanis, inesquecível.
Respiro para falar do resto dos shows.
Que dia bom de Lollapalooza. Dia em que o grande destaque foi a beleza técnica dos vocalistas (e cantores solo) durante toda a programação.
Comecei numa rota 100% brasileira chegando cedo pra ver o excelente rapper gaúcho ZUDIZILLA. Com uma voz rouca e poderosa para rimas e melodias, mostrou que o rap está vivíssimo e mais chique do que nunca. No final ainda chamou os maravilhosos Tuyo pra fechar a tampa de uma ótima apresentação.
As rimas continuaram com o KAMAU na sequência. Outro grande nome do rap fazendo aquele gap geracional gostoso com o show anterior, quebrado com a presença do próprio Zudizzila no palco como convidado. Outra pedrada, rimas certeiras e grooves infalíveis. Baita acerto da curadoria dar uma escatentada no trap insosso e sem alma de outras edições e colocar no palco o hip hop de verdade.
O rock errante da Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo veio em seguida. Militantes ferrenhos, jovens, inconsequentes, desajeitados. Tudo isso serve para narrar o que é o grupo ao vivo. O que poderia ser um problema, se torna uma grande diversão mostrando que música não tem fórmula pronta. Show sensacional terminado com um enorme dizer no led: RÉU! Foi tudo.

A Marina Lima veio em seguida. Icônica, com duas dezenas de hits eternos da música brasileira. A sua já conhecida voz rouca não foi um problema para ela se expressar. O show foi muito prejudicado pelo som mal ajustado e que acabou tirando o brilho da apresentação com algumas reclamações constrangedoras da cantora para sua equipe. Pabllo Vittar foi ao palco no final e reverteu em parte o azedume. Foi bom, mas poderia ser melhor.
Liderados pela voz magistral da cantora María Zardoya, o The Marias foi fácil o show mais cool da tarde/noite do segundo dia de Lolla. Som perfeito, fim de tarde, clima gostoso. Tudo cooperou para a vibe ficar lá em cima. Dream pop para apreciar sempre. Amei.

O Benson Boone veio em seguida. Para além das cambalhotas que ele dá no palco (graças a seu histórico de atleta olímpico), Benson convenceu pelo gogó. Cantor PODEROSO. Único senão é que é tudo tão sugado da performance do inesquecível Freddie Mercury que dá preguiça. Para geração TikTok, parte fundamental do seu público, parece tudo inédito e espontâneo, mas não é. Mesmo assim gostei bem e como é um artista muito jovem, deve achar caminho próprio em breve, assim desejo.
Os surpreendentes coreanos do Wave to Earth mostraram que o k-pop tem muitas camadas a serem exploradas. Trio de rock melódico, clássico com ótimas canções. Ouvi um pouco antes e fiquei curioso pra ouvir tudo depois da apresentação. Gostei demais e recomendo uma ida neles.
TERCEIRO DIA DE LOLLA BR #25: A MISSA SOMBRIA
Quando o Tool entrou no palco do Lollapalooza, uma longa espera de mais de 30 anos se encerrou para o público brasileiro. A missa sombria comandada pelo intenso e misterioso vocalista Maynard James Kennan foi um passeio sobre o lado introspectivo da psique e da espiritualidade, respaldado por uma camada sonora MUITO PESADA e precisa, no melhor que o Metal Alternativo (com A maiúsculo) pode oferecer. Uma aula.
Como surpresa ainda chamaram ao palco a guitarrista Jéssica Falchi pro lance ficar ainda mais intenso. Deve ter desalinhado os chakras de quem foi ver o Justin Timberlake mas ao mesmo expurgou e botou pra fora os demônios de quem é fã dos “ferramentas”. Coisa séria.
O que tinha de +40 chorando e entrando na trip xamânica da banda não estava escrito. Um dos shows mais impressionantes de metal que já vi. Um dos momentos mais intensos do Lollapalooza desde sua chegada ao Brasil. Fora da curva.

O último dia do Lollapalooza Brasil era o meu favorito antes de sair de casa e acabou se consolidando. O hardcore brabo da Charlotte Matou um Cara abriu os trabalhos a milhão, chamaram as Mercenárias, tocaram um das Dominatrix, e deram o recado do punk feminista necessário num rolé como esse. Curti.
Tentei ver o Clube Dezenove, mas tiveram problemas técnicos (tocaram sem p.a quase duas músicas inteiras) e fui ver outra coisa. Deu a hora do Terno Rei. Em crescimento claro, tocaram o rock pop paulistano que trazem no DNA, com direito a uma boa versão de “Lilás” do Djavan. Banda prontinha pra rádios pop rock Brasil afora. A receptividade deles no Lolla aponta para esse caminho.

Tinha gostado do Neil Frances em disco. O show foi frio, talvez meio fora do horário pro pamperô house playba que eles propõem. Em outro ambiente talvez funcione, ontem não funcionou.
Os pibes mais quentes da Argentina no momento vieram ao Brasil: Ca7riel y Paco Amoroso. Que pedrada segura. Aqui é um misto liquidificado de tudo o que existe pra dançar. Vai da EDM ao Trap, passeia pela cumbia e o Reggaeton, tudo emaranhado para atender o enorme carisma e sagacidade nas letras da dupla. O público veio junto com direito a centenas de mullets na plateia. Um dos melhores shows de todo o Lollapalooza.

O Parcels foi minha grande decepção do line up. Tava empolgado para vê-los, mas não bateu hora alguma. Às vezes os argentinos de antes roubaram a brisa e ficou pequeno pra eles no palco ao lado. Verei de novo em breve e tiramos a limpo essa dúvida.
O Bush é o que a gente pode chamar de rock americano, mesmo com o modelo e manequim Gavin Rossdale, sendo inglês. Último suspiro a passar no crivo “filhotes de Seattle” de onde também saíram Stone Temple Pilots e Silverchair, só pra citar alguns. Rock taboca clássico. Tocaram só as mais mais, com direito a voz (sempre) ruim ao vivo do seu vocalista, duas canções com direito a playback (no rock acho feio, passo o pano pro pop) e uma versão interessante de Swallowed só no synth. Gostei pela nostalgia. Acontece.
Fechei o Lolla vendo o Sepultura, tour de despedida. Tava com saudade de ouvir os clássicos, tocaram todos num piloto automático de quem tá numa tour intensa. Foi nostálgico também.. Vão encerrar as atividades em boa hora e com dignidade. Respect. Fim de Lolla.
UM BALANÇO GERAL DO LOLLAPALOOZA BRASIL 2025
Em termos gerais o Lollapalooza 2025 entregou o que mais importa num festival: ótimos momentos musicais.
Na onda mais técnica se mostrou acertada a decisão de não ter mais pulseira e caixas com o tal do cashless, que é uma dor de cabeça e causa filas adicionais. Banheiros bem bonitos também atenderam geral. Gosto do Autódromo, grande, com terreno propício para palcos bem localizados. De pedágio é preciso andar bastante, mas festivais grandes que se propõem a reunir muita gente são assim em qualquer lugar do mundo. Rolou uma lama no primeiro dia, amortizada pelo sol nos dias seguintes.
Também me sinto seguro com protocolos de stop and go do festival por conta da chuva forte. Sinal de que existe preparo e preocupação com acontecimentos “extra classe”. Bom também.
PRA FINALIZAR, UM TOP 5 DO QUE DE MELHOR ROLOU POR LÁ!
1. Alanis Morissette
2. Tool
3. Ca7riel Y Paco Amoroso
4. Jpegmafia
5. The Marias
Até a próxima!





