Nos dias 22 e 23 de agosto, São Paulo recebe a primeira edição do festival C6 no Rock, que homenageia o rock nacional da década de 80 e traz um line-up totalmente fora do óbvio.
Mas por que “fora do óbvio”? O line-up é composto quase 100% por discos clássicos que serão apresentados ao vivo na íntegra. Porém, não é só isso que diferencia o C6 no Rock dos demais festivais de rock nacional.
O Panorama Mapa dos Festivais 2025 mostra que o rock é o segundo gênero que mais tem festival no Brasil. Ano passado foram 47 festivais dedicados ao rock, mas, quando olhamos para os nomes escalados na programação, vemos mais do mesmo.
Os cinco nomes que mais aparecem nos line-ups de festivais de rock no Brasil são: Nando Reis (17 festivais), CPM 22 (13 festivais), Biquini (13 festivais), Samuel Rosa (12 festivais) e Os Paralamas do Sucesso (12 festivais). Sim, são artistas e bandas que representam o BRock. No entanto, são os mesmos nomes na maior parte dos eventos.
O C6 no Rock chega com uma proposta diferente e, para entender melhor, o Mapa dos Festivais conversou com alguns dos curadores do festival.
“Queríamos criar shows diferentes do formato “greatest hits” que esses artistas já apresentam em outros eventos, concentrando o foco nas obras-primas que criaram naquela década.” – Marcus Preto, um dos curadores do evento.
No C6 no Rock você vai ouvir esses discos na íntegra

Cada um dos discos escalados para serem apresentados na primeira edição do C6 no Rock causou impacto cultural, tanto na década de 1980 quanto nas gerações seguintes.
Quer exemplos? Leonardo Lichote, um dos curadores, nos dá três:
“Selvagem” ampliou as fronteiras do rock nacional na direção do que hoje chamamos de Sul Global. “Fullgás” redefiniu os padrões de elegância e inteligência do pop brasileiro. “Cabeça dinossauro” traz um apanhado de canções-tijolo contra vidraças do país que ainda precisam ser estilhaçadas.
A escolha de homenagear os anos 80
“O rock dos anos 1980 ajudou a formar nossa personalidade política e comportamental. Saíamos de uma ditadura de décadas e estávamos animadíssimos com a chegada da democracia, podendo finalmente dizer o que estava entalado, apontar os culpados e enumerar seus crimes”, afirma Marcus Preto.
“Ao mesmo tempo, havia um desejo enorme de reinventar o país, imaginar uma sociedade menos careta, mais inclusiva, mais livre. Muitos dos discos que compõem nossa “discoteca básica” (vários deles lançados em 1986) carregam esse sangue quente, essa urgência, esse gás. Por isso, quarenta anos depois, seus discursos continuam tão vivos. É importante que um país se lembre daquilo que sonhou ser, dos lugares onde quis chegar”, finaliza o curador.
Como apontou Marcus, cinco dos oito discos homenageados foram lançados em 1986. Exatos 40 anos atrás, o que deixa esse festival com um gostinho ainda mais especial. Além disso, é uma experiência diferente ouvir todo um disco ao vivo, já que até nas próprias turnês dedicadas à um álbum, uma ou outra música acaba ficando de fora.
“Quando um disco é tocado inteiro, o público reencontra não apenas os lados A, mas também os lados B daquela história. E as faixas menos conhecidas são fundamentais para compreender uma obra, um artista e um tempo. Como todo fã de LP sabe, muita música extraordinária nunca tocou no rádio. São justamente essas que valem ouro.” – Marcus Preto.
A importância dos álbuns nos dias de hoje
Leonardo Lichote contextualiza: “O formato do álbum se firmou a partir dos anos 1960 como a forma mais completa de um artista dar conta das suas ideias. Naquelas 10, 12 faixas, se constrói uma narrativa, uma proposta estética, um posicionamento no mundo que vai muito além de cada faixa isoladamente.”
É num disco que podemos conhecer melhor um artista e, ao escutar uma obra completa, entendemos a mensagem que está sendo transmitida. Também ressignificam, evidentemente, mas o fato é que a experiência é outra.
“Num tempo em que a atenção é fragmentada, onde se ouve música em shuffle, a partir de playlists muitas vezes sem contexto, é importante valorizarmos essa audição vertical, na qual você mergulha no universo do artista”, afirma Lichote.
“O C6 no Rock quer convidar o público para esse mergulho, ou melhor, essa série de mergulhos em álbuns que fazem sentido como um todo, para além da grandeza e da delícia de cada um de seus hits ou “lados B”” – Leonardo Lichote.
O C6 no Rock oferece uma experiência única!
“Os festivais são, hoje, uma das formas mais valorizadas de se consumir música. Ali, o público tem com a música uma experiência física, comunitária, para além do fone e do algoritmo que o isolam. A música, tantas vezes diluída no cotidiano, ganha um caráter excepcional na grandiosidade do festival”, destaca Lichote.
“O C6 No Rock abraça esse formato, tão presente na cultura contemporânea, pra oferecer uma audição “à antiga”: o álbum inteiro, da primeira à última faixa. O melhor dos dois mundos, portanto.” – Leonardo Lichote.
Os anos 80 para Rita Lee
“Além de reapresentar discos que marcaram aquela época, queremos também fazer homenagem a pessoas que definiram seu espírito e até hoje nos inspiram. As escolhas são até óbvias”, destaca Hermano Vianna, um dos curadores do festival.

Rita Lee vai ser uma das homenageadas no festival em um show com Alice Caymmi, Baby do Brasil, Catto, Fernanda Abreu, Letrux, Marina Sena, Miranda Kassin e Sandra Sá.
“Sem Rita Lee não haveria o rock brasileiro dos anos 1980, não com brasilidade antropofágica que se tornou uma de suas principais características. Desde o tropicalismo dos Mutantes até seu pop que lançou perfume para todos os lados, ela foi exemplo de ousadia e conquistas de novas fronteiras estéticas com enorme sucesso em todo o país.” – Hermano Vianna
Os grandes sucessos de Rita serão apresentados, mas com uma seção dedicada a seus discos dos anos 1980, revisitando clássicos que merecem ser redescobertos.
Todo Amor Que Houver Nessa Vida
Cazuza é um nome fundamental dos anos 1980, então nada mais justo que homenageá-lo nessa primeira edição do C6 no Rock. Foram 3 discos com o Barão Vermelho e 5 discos solo, incluindo “Burguesia”, seu último álbum lançado em vida, em 1989.
“Cazuza foi uma espécie de menestrel do movimento. Com o Barão Vermelho e sua carreira solo, é difícil escolher um único disco que represente bem sua multifacetada criação artística. Então decidimos por um grande show onde a diversidade de proposta estética fique bem evidente”, afirma Hermano Vianna.
Quem são os responsáveis pela curadoria do C6 no Rock?
Agora, apresentando formalmente o time de curadores do C6 no Rock.
Monique Gardenberg
Cineasta, diretora teatral e produtora cultural brasileira, responsável pela criação de eventos como Free Jazz, TIM Festival e C6 Fest.
Hermano Vianna
Antropólogo e pesquisador musical, autor dos livros “O Mistério do Samba” e “O Mundo Funk Carioca”.
Marcus Preto
Jornalista, curador e produtor musical. Por trabalhos com Gal Costa,
Erasmo Carlos e Jota.pê foi premiado com 4 Latin Grammy. É curador do Coala Festival.
Leonardo Lichote
Jornalista e crítico musical, é colaborador do El País e da Folha de S.Paulo. É um dos editores da coleção Cadernos de Música (Revistas de Cultura) e da revista eletrônica Resenhas Miúdas, de crítica musical.
O que os curadores querem deixar para o público pós festival?
De acordo com Hermano Viana, “a ideia central é embarcar na nostalgia para ir direto para o futuro. Tudo foi pensado para tornar evidente que aqueles discos e aquelas composições poderiam ser lançadas hoje e ainda causariam espanto, e soariam futuristas, apontando o que – no nosso tempo, com a crítica do presente – é semente para boas novas. Da “Teerã” do “Selvagem?” dos Paralamas do Sucesso ao “Pro dia nascer feliz” do Barão Vermelho. Aquilo tudo ainda pode ser ouvido como manifesto para nos dar força para seguir adiante, sempre adiante.”
Sobre o C6 no Rock
O festival acontece na Área Externa do Auditório do Parque Ibirapuera, em São Paulo. Garanta seus ingressos aqui e fique por dentro de todas as informações úteis do festival na matéria com tudo o que você precisa saber antes de ir ao C6 no Rock que preparamos.






