Aparelhagens do Pará: a potência cultura periférica que pode reinventar os festivais brasileiros

Texto por Ane Oliveira

Não é de hoje que a cena musical amazônica segue desbravando caminhos. Há anos, nomes como Gaby Amarantos, Joelma e Gang do Eletro são recorrentes em diversos line-ups pelo país, ainda que com uma presença menos destacada que a de artistas de outras regiões. Mas quando se fala em música amazônica dentro dos grandes festivais brasileiros, o que costuma aparecer nos palcos ainda representa apenas uma pequena parte do que realmente pulsa nas periferias do Norte.

Uma ausência notória é a cultura das aparelhagens do Pará, um fenômeno musical, visual e comunitário que há décadas mobiliza, encanta e inspira multidões. As aparelhagens vão muito além de um sistema de som ou de uma festa qualquer: é um encontro poderoso de diferentes manifestações artísticas que estimulam diferentes sentidos do público.

Inicialmente, as aparelhagens eram basicamente grandes “paredões” de caixas de som, mas hoje são verdadeiros altares sonoros, onde o som se complementa com enormes estruturas e instalações cenográficas, quase como alegorias monumentais, com fachadas, mesas e símbolos próprios que identificam cada aparelhagem.

Algumas assumem formas marcantes, em recriações futuristas de animais reais, mitológicos e outros elementos da natureza. No Crocodilo, por exemplo, os DJs se apresentam em cima de uma enorme versão tecnológica do réptil, guiados pelo lema “o animal que toca tudo do Pará”. Já no Rubi, conhecido popularmente como “a nave do som”, os DJs tocam uma espécie de nave espacial que simula a pedra preciosa vermelha. No Carabao, o animal inspirador é o tradicional búfalo, onipresente na Ilha de Marajó. E no Super Pop, a cabine é instalada no alto de uma “águia de fogo”.

Mas o que guia tudo isso, sem dúvidas, é a música. Mais especificamente, o tecnobrega e todas as suas inspirações e desdobramentos, como o clima retrô do brega “saudade” e o explosivo rock doido, movimento recente que nasceu da inventividade das periferias amazônicas e construiu seus próprios caminhos de circulação.

Em Belém e em outras cidades do Pará, as aparelhagens fazem parte da vida cultural. O público conhece suas diferentes estéticas, a personalidade dos DJs e a proposta musical de cada um. No entanto, quando essa cena começa a circular para fora do Pará, a dinâmica dos eventos muda. O público se aproxima primeiro pela curiosidade, mas não demora a entender que está diante de algo diferente.

Algumas iniciativas já começaram a experimentar esse caminho. O Festival Psica, realizado em Belém, incorpora o universo das aparelhagens dentro de sua programação, reconhecendo a importância dessa cultura dentro da própria cena local. Nesse caso, a conexão é ainda mais natural: estamos falando da mesma cidade onde essa tradição nasceu e se desenvolveu.

Em 2025, o Festival Paredão, patrocinado pelo Banco do Brasil, incluiu o Crocodilo em suas edições no Rio de Janeiro e em Brasília. No mesmo ano, o Crocodilo também foi atração central da Virada Cultural de São Paulo, com mais de 20 horas de performance no Vale do Anhangabaú, no centro da cidade, diante de um público enorme e diverso. A programação também explorou outros formatos de apresentação em cima da estrutura, utilizando a aparelhagem como palco para artistas como Gaby Amarantos, Gang do Eletro, Viviane Batidão e Jaloo ao longo do evento.

A experiência chamou a atenção de diferentes agentes do circuito de festivais. O Festival Elos, realizado em Fortaleza dentro da programação do MICBR – Mercado das Indústrias Criativas do Brasil, por exemplo, decidiu apostar nesse formato depois de ver de perto a apresentação na Virada e levou a aparelhagem JSom, a “Fênix do Marajó”, para uma performance impactante na Praia de Iracema.

Aparelhagem JSOM no Festival Elos. Foto: Marcelo Rocha.

O resultado é um ambiente diferente dentro do festival onde pista, performance e cultura popular se encontram. Esse tipo de aposta amplia o repertório de experiências que um festival pode oferecer ao público. Ao incorporar a estética das aparelhagens, a sensação é de que o evento ganha outra camada: uma experiência que dificilmente se repete em outro lugar.

Em todos esses casos, a recepção do público foi parecida. Gente chegando aos poucos, guiada pela curiosidade, mas rapidamente contagiada pela explosão de estímulos das aparelhagens. Ainda existe muita desinformação sobre o que são as aparelhagens e sobre a dimensão cultural que elas têm no Pará, mas essas experiências comprovam que existe interesse e espaço para que essa cultura circule cada vez mais pelos festivais do país.

O principal desafio à circulação dessa cena é a logística, que exige planejamento e uma operação muito bem coordenada. A estrutura normalmente segue por carreta, transportando as peças que formam a aparelhagem e os equipamentos necessários para a montagem. Junto com ela viaja a equipe que faz tudo acontecer: DJs, técnicos, produtores e os carregadores de aparelhagem, profissionais fundamentais nesse processo.

Nem sempre é possível levar toda a estrutura original para fora do estado, mas versões mais compactas, ajustadas à realidade de cada evento, são possíveis e viáveis na maioria das situações; até porque, na prática, não difere muito da logística de uma grande banda que circula em festivais, ainda que com as particularidades desse universo.

Grande parte da inventividade da música brasileira continua nascendo nesses territórios e circuitos que ainda circulam pouco pelos grandes palcos. Quando um festival decide apostar nisso, amplia a narrativa da sua programação e passa a contar uma história mais diversa sobre o que é a música ao vivo no Brasil hoje. Trazer uma aparelhagem para dentro de um festival é reconhecer a força de uma cultura que se desenvolveu com linguagem própria, criando seus próprios formatos de espetáculo e uma relação muito particular com o público.

Festivais que se arriscam nesse caminho acabam oferecendo ao público algo que não se repete facilmente em outros contextos: uma experiência que se desloca e carrega consigo toda uma história construída nas pistas do Pará.

Quem escreveu?

Ane Oliveira é produtora cultural e pesquisadora da cena musical amazônica. Atua na articulação e difusão de artistas do Norte do Brasil e na interlocução entre festivais, projetos culturais e a cultura das aparelhagens paraenses, buscando ampliar os espaços e o reconhecimento dessa estética como parte da música brasileira contemporânea.

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